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21.4.09

18 de abril - dia calmo

foi dia de nos despedirmos de valladolid e custou bastante… olhar pela última vez para o quarto e despedirmo-nos de todo o seu conforto. último café com o paulo e a letícia e as horas não perdoavam, tínhamos de partir, sem saber como agradecer ao paulo por estes dias. não há palavras que descrevam a sua hospitalidade!

começava mais um dia de viagem, e que belo dia! não íamos fazer muitos kms, faríamos apenas uns 50. que dia calmo que tivemos! deu para parar em todas as terrinhas que passávamos. numa para comer um chocolate, noutra para comer uma banana, tudo sem muita pressa. numa das subidas, até quisemos ir ao lado da bicicleta apenas para não nos cansarmos. não tínhamos pressa, por isso não nos queríamos cansar com uma subida um pouco maior que as outras. o caminho era com pequenos altos e pequenas descidas, muito suaves. e lá íamos nós devagar, como gosto!

já com 37kms feitos, decidimos almoçar, a nossa famosa massa, mas desta vez, não era de queijo mas sim de espinafre! paramos em frente a uma pequena capela e nesse instante passa um senhor que ia guardar o seu cavalo. perguntamos se não havia nenhum sítio onde pudéssemos comprar pão. não havia. aliás, não havia nada naquela pequena terra que apenas tinha uma rua! Ele ainda nos perguntou se não queríamos pão que ele ia a casa buscar, agradecemos, mas não seria necessário. ficamos sozinhos com o cavalo. nunca tinha visto um cavalo tão de perto e criei um grande laço com ele. tenho um dom com os animais! já tinha descoberto isso com os gatos agora com os cavalos… relinchei a primeira vez e logo ele relinchou! e foi assim que criamos uma grande amizade, com um enorme diálogo entre nós! ora relinchava eu ora ele e, com essa brincadeira, o dono do cavalo veio ver o que se passava e atrás dele, a sua esposa. eles estavam espantados com o sucedido e daí o senhor virasse para a mulher e diz que nós gostaríamos de ter um pouco de pão. não serviu de nada dizer que não era preciso, fui com a senhora até sua casa e aproveitei para me servir da casa de banho. o bocado de pão, era meio cassete! como há pessoas boas por estas estradas! a despedida com o cavalo também foi difícil. consegui tocar nele por detrás das grades e consegui dar-lhe erva à boca, mas não estava muito à vontade, pois é um bicho que mete respeito pelo seu tamanho e força… partimos e ainda ouvi uns quantos relinchos. Só podia estar a chamar-me. não sei o que lhe disse mas devo ter entrado bem fundo no seu coração!

já faltava pouco para chegar a palência, onde iríamos ficar em casa de um rapaz do couchsurfing. o caminho continuava calmo e teria sido perfeito se o meu rabo não se queixasse. como é desconfortante para o rabo andar de bicicleta! continuávamos a pedalar por uma estrada onde passar carros, era uma raridade! o caminho era todo nosso, e os campos verdes com as suas pequenas ondulações, também!

chegamos a palência, e tivemos como tarefa encontrar a casa que nos iria acolher. o apartamento era enorme e o david, cedeu-nos o seu quarto para termos mais espaço. já vos disse como sabe bem tomar banho no fim de uma viagem? é o melhor do dia! estamos tão mal habituados! há dias que conseguimos tomar dois banhos por dia! que luxo! no fim do banho, o david levou-nos a conhecer a cidade, ou melhor, levou-nos de carro para fora da cidade, ao monte, onde podíamos ver a cidade de fora. na cidade, a visita foi um pouco a correr. não é por mal, mas preferimos visitar a cidade sozinhos, porque podemos parar quando queremos, podemos perder-nos e assim descobrir outras coisas, sentarmo-nos numa esplanada… acompanhados já é diferente, vamos por onde ele quer, como guia turístico, o que também não é mau mas…

o jantar foi feito pelos três, ou melhor ele dava-nos os legumes e dizia como cortar… quase que me dava um ataque de riso! claro que sabemos cortar legumes! adoramos cozinhar, e ambos cozinhamos bem! contive o riso e ouvi as explicações, até como se faz uma salada! o jantar estava óptimo! david, obrigada! não parávamos de comer! e no fim, um chá quente de camomila. a conversa foi muito interessante, e tornou-se num serão muito agradável!

nessa noite, mesmo com poucos kms feitos, estávamos cansados! tão cansados que não conseguimos ligar o computador para escrever um pouco do nosso dia… dormimos um pouco tortos (com a cova no meio da cama) mas dormimos!


17.4.09

17 de abril - último dia em valladolid

última noite de descanso, última noite no conforto do quarto do paulo! amanhã é dia de pegar nas bicicletas e conhecer mais um pouco das vistas de espanha, e esquecer um pouco o mundo informático, onde passamos a maior parte do tempo...
o dia passou tranquilamente, na companhia do paulo e da sua namorada. tomar café ali, entrar numa loja acolá, deliciar-nos numa livraria... não nos sentíamos turistas, preferimos fazer a vida que eles fariam num dia normal.
o almoço teria sido realizado numa praia fluvial aqui perto de casa, se não fosse o tempo de chuva... ficamos a conhecer a tal "praia" mais tarde. optamos por almoçar em casa e depois sim, vestimos os casacos e fomos à rua.
hoje sentia-me como o clima... nem sol nem chuva... estava assim assim sem grandes sorrisos... é daquelas coisas que não conseguimos arranjar explicação... ia caminhando, absorvendo o que via. preferia falar pouco e ouvir mais. gosto de entrar nos cafés em espanha, sinto que são acolhedores. gosto de cafés, gosto das decorações e do bom gosto nos cafés.
amanhã temos um novo caminho para percorrer, esse com menos quilómetros! não voltaremos a ser doidos como esta semana que passou. serão apenas 50 kms, o que nos permite acordar mais tarde e tomar uma café na plaza mayor antes de partir.
adormeço, pois os olhos estão pesados e a cama esta quentinha!




16.4.09

16 de abril - dia de descanso em valladolid

hoje não foi preciso acordar cedo. foi dormir até não poder mais! o sol entrava pela grande janela do quarto e o corpo pedia para levantar. ainda por baixo do edredon de penas, tentava mexer a perna esquerda para ver como estava o joelho. bastou uma noite de descanso para ter o joelho bom! ok, não está a 100% e não sei até que ponto poderia hoje pegar na bicicleta, mas já conseguia caminhar sem qualquer dor! tinha ficado assustada na noite anterior, pois as dores eram insuportáveis...
novo banho, pequeno almoço tomado e fomos visitar a cidade. não gostamos de mapas, preferimos caminhar e ver o que encontramos à nossa frente. depois sim, perguntamos o que nos aconselham a ver, a ir, a conhecer. a chuva lá aparecia e desaparecia quando queria. gostei do grande jardim, bem cuidado mas com um ar selvagem. nunca vi tantos pavões juntos. o que mais me impressionou foi ver num pequeno lago, um pato morto por baixo da água, e outro pato a tentar puxa-lo para a tona da água mas em vão... não desistia de salvar o amigo. não vimos ninguém que poderia ser responsável pelo parque e fomos embora... o rafael ainda pensou em ir tirar o pato da água mas era impossível chegar lá. e agora sinto-me um pouco culpada em ter virado costas sem ter insistido em fazer qualquer coisa... saímos do parque e continuamos o nosso passeio. já tinhamos fome e só pensavamos em comer kebab vegetariano, com o molho que nos deixa com um hálito fresco durante toda a tarde! combinamos com o paulo e a sua namorada para almoçarmos juntos e assim foi! eu e o rafael comemos tudo sem deixar uma migalha e ainda ficamos a olhar para as batatas fritas que eles tinham deixado, mas nenhum de nós teve coragem para perguntar se poderiamos comer...
de novo sozinhos, e decidimos ir para casa pois a chuva tinha voltado. um pouco na net e depois voltamos a sair para comprar coisas para o jantar. de novo em casa e de novo na net. notícias deste, responder aquele... escrever no blog, navegar um pouco e depressa chegou a hora de fazer o jantar que foi, mais uma vez, confecionado pelo rafael.
conhecemos um bar muito interessante e lá estivemos na conversa (eu, sem coragem para arranhar no espanhol). estavamos todos cansados... decidimos ir cada um para "suas" casas e descansar. cá estou de novo na net a rever o meu dia e a partilha-lo.

15 de abril - que esticão!

tinha dito que seria incapaz de voltar a fazer 100kms, que eramos doidos, que de zamora até valladolid teria de ser feita em duas viagens! preferia acampar do que me matar!
tínhamos de sair do albergue até às 9h, assim fomos obrigados a levantar-nos mais cedo, e ver os hábitos de acordar de cada pessoa. o pequeno almoço foi acompanhado com uma pequena conversa com um espanhol que estava a fazer a via de la plata, também de bicicleta. fomos os últimos a sair do albergue e cada um pegou nas suas bicicletas e seguimos diferentes caminhos.
saimos de zamora em direcção a valladolid mas a intenção era pernoitar em algum sítio. o caminho era tranquilo, mas sempre monótono. os kms passavam bem, sentia-me em forma e estava a adorar a sensação de calma. estávamos a começar bem até que o meu rabo começou a queixar-se! o lauroderme não faz milagres e o desconforto é cada vez maior! tentava não pensar na dor mas era cada vez mais complicado pois parecia que estava sem sangue no rabo e passava para a coxa esquerda... tinha de me levantar e voltar a sentar. e o voltar a sentar? ai mãe!... tirando isso o caminho era do melhor! ia à frente e o rafael ia ao meu ritmo mas, quando olho para trás, vejo-o já fora da estrada, olho para a frente para travar e quando novamente olho para trás, lá está ele caido no chão! muito me ri! a sorte é que era pequena a ribanceira e ele não se maguou. altura ideal para fazer um pequeno video. o cheiro não era nada agradável pois estavamos mesmo em frente a uma estrebaria. e assim fizemos uma pequena pausa forçada, a qual o meu rabo agradeceu!
de volta à grande recta (qual estrada do texas!) e a vista era semelhante, os grilos sempre a acompanhar-nos, os grandes campos, e alguns animais mortos na berma da estrada... queriamos fazer o máximo de kms antes de almoçar para depois ser mais tranquilo e como os 50 kms foram bem passados desidimos almoçar em tordesillas que precisavamos de pedalar apenas mais 10 kms mais coisa menos coisa). se não fosse o rabo, tudo seria perfeito e até falamos na possibilidade de pedalar até valladolid. vamos indo e vamos vendo. mas a ideia de tomar um banho quente e ficar três dias a descansar fazia com que quisesse chegar rápido lá sem parar para acampar. almoçando em tordesillas só precisavamos de fazer mais 40 kms. não nos assusta!
paramos para comer qualquer coisinha, já que ainda faltava alguns kms para almoçar. ficamos numas bombas de gasolina que se encontravam fora de serviço. eram desesperantes as dores no rabo e o cansaço nas pernas não perdoava. conseguimos enganar o estômago com uma sande de batatas fritas e o resto do leite achocolatado.
depressa chegamos a tordesillas e escolhemos um sítio ao sol para comer a famosa massa com queijo no seu interior. agora só faltava 40 kms e se fossem iguais ao que já percorremos seria uma maravilha! 40 kms não é muito mas quando esses são acumulados a outros muitos kms, esses miseráveis 40 são terríveis! pedir indicações a espanhóis não é sempre boa ideia pois mandam-nos sempre pela auto-estrada... fomos obrigados a fazer o caminho contrário quando à nossa frente se encontrava a placa da auto-estrada... tivemos de voltar para trás e seguir pelo caminho destinado às bicicletas. já estava a ficar muito cansada... e nada ajudou quando começaram a cair as pequenas pingas que se transformaram em granizo e depois do graniso foi chuva intensa que nunca mais parava! posso dizer que estava toda equipada, protegida da chuva dos pés à cabeça!
pedimos mais informações e lá seguimos caminho. mais uma vez esse caminho seria perfeito se pudessemos seguir pela auto-estrada! tinhamos de voltar mais uma vez para trás mas desta vez tinhamos de subir... e não era assim tão curto o caminho! vejo o rafael a parar e a sorrir. boa coisa não era, de certeza... tinha um caminho em terra batida que seguia junto à auto-estrada, mas eu não queria arriscar pois estava com medo de ser obrigada a voltar mais uma vez para trás. mandamos parar um carro e perguntamos se aquele caminho de terra batida seguia para valladolid. a resposta foi positiva e agora sim, estava convencida. pedalamos na terra batida, vendo os carro ao nosso lado esquerdo a mais de 120 kms/h!
os últimos kms são sempre os piores. o estar quase, o pensar no banho, o querer comer de tudo... mas ainda falta algum tempo até pudermos disfrutar destes prazeres tão banais. já viamos valladolid, cidade onde iríamos descansar uns dias! entramos na confusão, paravamos nos semáforos, íamos perguntando pela rua onde íriamos ficar. o meu joelho esquerdo não estava nos seus melhores dias mas não dei muita importância. finalmente encontramos a rua e o prédio, agora só tinhamos de subir com tudo o que era nosso até ao 10º andar, tarefa não muito fácil. o paulo, amigo do rafael, acolheu-nos no apartamento onde vive com mais três pessoas. ele ainda não se encontrava em casa mas a porta abriu-se com simpatia. a pilar mostrou-nos a casa e as duas toalhas que o paulo tinha deixado para nós e no meio delas, uma caixinha roxa com amêndoas de chocolate! poucos minutos depois, o paulo chegou! ficamos no quarto dele com uma janela enorme com vista para a cidade, deixou-nos comida à disposição e fez-nos companhia até à hora de jantar. sinto-me num hotel 5 estrelas!
o meu joelho estava pior, bem pior! não conseguia caminhar, nem pousar o pé no chão, não conseguia esticar nem dobrar a perna, havia apenas uma posição, não muito dobrado nem muito esticado, portanto. depois do tratamento ao joelho, senti-me como um enorme pau de incenso, a espalhar um aroma de picalmo (um spray analgésico).
depois do jantar fomos para a nossa suite, onde tentava lembrar-me do dia anterior para escrever no blog, e posso dizer que é uma ginástica mental muito complicada...
depressa me deitei com as dores insuportáveis no joelho e depressa a dor passou por ter adormecido.

é preciso brincar

este vídeo mostra a boa disposição com que partimos, em direcção a palaçoulo. 65 km, pensávamos nós...

14 de abril - hemos llegado

santa páscoa, santas doçarias! Levantar da cama e meios sonâmbulos, cometemos uma loucura, tomamos um banho quente logo de manhã, mesmo sabendo que o dia seria passado a suar. ao fazer o caminho para lá, vejo do meu lado direito a mesa recheada de doces! o bom de pedalar é que não me sinto culpada em comer muito, pois vou gastar tudo durante o dia. banho tomado, pequeno almoço tomado, sacos no atrelado e estava na hora de nos despedirmos da família que tão bem nos acolheu! tivemos indicações do melhor caminho a tomar e partimos, com uma pequena recordação, uma navalha de palaçoulo para cada um!

chegamos rápido a miranda, o tempo passou a voar e sentia-me em melhor forma. já estávamos perto da fronteira, perto de espanha, perto de novos caminhos! já avistávamos espanha quando decidimos parar para as últimas fotografias em portugal. estávamos mesmo contentes de termos atravessado portugal e não disfarçávamos essa alegria. o sorriso era enorme e nem nos assustava a subida que nos esperava em espanha. começamos a descer, saímos de portugal numa descida enorme, despedimo-nos de portugal em grande velocidade e foi rápida a estrada em espanha! novas fotografias já com a placa a dizer espanha! chegamos! senti essa chegada como uma pequena vitória! mas ainda não estávamos no destino desse dia: zamora!

aguentamos bem o início da subida, sempre com o rabo no selim, devagar íamos pedalando, mas claro, não conseguimos chegar ao topo… lado a lado com a bicicleta terminamos a subida, tarefa nada fácil! não me agradou ver tanta sujidade na berma… garrafas de plástico, latas, partes de sofás… mas no nosso portugal também encontramos muito disso!...

pedalar em espanha tornasse monótono… há uns pequenos altos mas nada de grave, pedalasse mesmo bem. o pior é que é uma recta que nunca mais acaba! pedalasse mesmo bem, é como quem diz… chegar a um ponto que já me sinto cansada e quando saio da bicicleta sou incapaz de caminhar em linha recta. mas não me quero queixar muito porque realmente estas estradas são para meninos… eu é que ando um pouco em baixo de forma mas os dias de fraqueza estão quase a acabar! no caminho só pensava no almoço! Isso significa paragem para descansar e qualquer coisa que pomos à boca é ouro derretido! não se pode desperdiçar qualquer migalha! estreamos as nossas navalhas, de um lado faca e do outro garfo. ficaram aprovadíssimas! já não me separo dela! acabamos de almoçar quando já eram 15:30. Pés nos pedais e força!

a estrada era comprida e as subidas assustavam mais ao vê-las do que ao fazè-las. sendo assim, tentava não desanimar ao ver uma subida, só precisava de ganhar bastante lanço e depressa chegava ao topo, e tinha que repetir várias vezes esse truque. Há truques que se gastam, e de tanto os fazer já deixam de fazer efeito, já estava cansada… cansava-me nas descidas, que não eram muito acentuadas e quando já estava no meio da subida já a minha respiração ficava alterada… arranjava mais truques, um deles era ouvir os grilos que eram muitos, e imaginar o que estavam a dizer. na minha cabeça era assim: forçaforçaforçaforça… e lá ia a tanya na meta final. quando via ovelhas, falava com elas, fazia mée e várias respondiam e assim fazíamos diálogos. numa subida, daquelas que detesto, tentei resistir e queria chegar ao topo sem sair de cima da bicicleta. não olhava para o fim da subida, não olhava para o lado, só olhava para o chão! várias pedrinhas pequeninas faziam o piso, gostava de ver as brancas. depois tentava olhar apenas para a linha continua e manter a bicicleta sempre na linha. estava concentrada nos meus pequenos truque, esquecendo o cansaço quando sinto o rafael ao meu lado a ultrapassar-me!!! com a bicicleta à mão!!! desisti! tanto esforço para nada… lado a lado, lá fui com a minha amiga.

os últimos kms são uma pequena tortura… o estar perto mas ainda faltar bastante… o cansaço, o peso nas pernas… o rabo que já começava a dor (depois de termos comentado o estranho que era de ainda não ter começado a doer). prometia a mim mesmo que no dia seguinte nunca seria tantos kms, que isto era de doidos assim, que estávamos a massacrar o corpo. mas quando finalmente se chega ao destino, quando olho para o conta-quilómetros e vejo que conseguimos 86 kms, sinto que cumprimos a missão!

zamora! sítio para dormir ainda não tínhamos… mas tínhamos uma ideia: procurar um albergue para peregrinos. e foi isso que fizemos. em frente do albergue, tocamos à campainha e veio um senhor abrir a porta e ajudou-nos a levar as bicicletas para o pátio. as bicicletas já instaladas, perguntou pelo passe de peregrino… pois isso ainda não tínhamos e explicamos que estávamos mesmo a começar o caminho. não havia problema! indicou-nos onde podíamos arranjar o passe e lá fomos nós. com o mapa na mão, seguimos a trajecto que o senhor nos tinha mostrado. qual mapa ao tesouro! estávamos no sítio certo, não podia ser outro, mas era muito estranho ser ali… entramos e na nossa frente tinha duas portas fechadas, à esquerda, entravamos para uma pequena capela… não fazia sentido… voltamos a sair e a olhar para o mapa. tinha de ser ali! Voltamos a entrar, e vimos que em frente mas no lado directo tinha um buraco na parede, mas que não dá aceso ao outro lado pois estava lá uma espécie de roleta da dimensão do buraco. tinha uma campainha e tocamos. Uma voz muito fraquinha que dava para perceber que muitos e muitos anos passaram naquela voz, perguntou o que queríamos. era difícil perceber aquela voz mas conseguimos o que queríamos. ela dizia o que tínhamos de pagar, deixávamos o dinheiro na roleta e ela rodava, aparecendo depois a nossa frente os passes para preenchermos, voltávamos a rodar e tinha o troco, e a última volta era o passe já carimbado. Sentia-me num casino a rolar a “roleta” mas sem ganhar nada… ainda tivemos de pagar. foi muito estranho, nunca tinha assistido a tal coisa! uma senhora ali fechada, sem ver o mundo cá fora, sem olhar para a cara das pessoas… não conseguia acreditar no que estava a acontecer… já com os passes nas mãos, voltamos para o albergue ainda abananados com o que experienciamos.

mais uma nova experiência para mim: ficar num albergue. dividir um quarto com outras pessoas, neste caso, éramos nós, mais uma francesa, um alemão e um espanhol. começamos logo a falar com a senhora e senti o meu francês muito enferrujado… a conversa foi muito curta pois estávamos mortos por um banho! não consigo explicar o que sinto quando a água quente cai em mim! só me dá vontade de rir e fechar um pouco os olhos para saborear o momento. a água cai e o cansaço desaparece. fim do banho e um pequeno passeio pelo centro. não achei muito bonito, do pouco que vi… achei bastante velho, como que abandonado… preferi ir descansar para o albergue depois de uma pequenas compras para o jantar. enquanto cozinhávamos, falávamos com a senhora francesa. anda sozinha a caminhar e diz que desde que começou a fazer os caminhos de santiago não quer outra coisa! vai sozinha, o que não agrada às filhas. tem 64 anos e um espírito aventureiro como quero ter quando chegar a essa idade! contou a sua vida, os dois casamentos que teve e que ficou viúva de ambos… e que foi a partir daí que decidiu mudar de vida. o que tinha perdeu importância, então decidiu vender a casa, desligar-se de tudo o que era material. começou a pensar nela e decidiu (depois de uma breve explicação) fazer os caminhos de santiago. que força de mulher! o jantar foi agradável em agradável companhia.

o rafael cozinhou, lavar a loiça fica para mim. no fim da loiça lavada, deito-me no sofá enquanto o rafael escreve o seu dia. depressa adormeci… só fui acordada para ir para cama. fiquei no 2º andar do beliche e como dormi bem!

14.4.09

13 de abril - fazer das tripas coração

a rotina da manhã: acordar, vestir, arrumar! prontos para partir! destino: palaçoulo. pequena paragem na sala onde estão os aparelhos da musculação e dar uns quantos murros no saco de boxe, dizendo “vão ser 65 kms, hoje… vamos conseguir, vamos conseguir!” respirar fundo e estava mesmo pronta e mentalizada que seriam 65 km! é o que o rafael diz, foi o que o Rafael viu na net, a tanya acredita no Rafael!
“eu vou, eu vou eu vou para palaçoulo eu vou”. comprar pão, parar no mini preço e comprar mais umas quantas coisas para fazer peso nas bicicletas, e devagar abalamos de vila nova de foz côa. mas antes da verdadeira despedida, paramos numa pequena capela para tomar o pequeno almoço que ainda não tínhamos tomado: leite achocolatado e pão com queijo. o início do caminho foi a descer e o frio era muito… foram 10 km de boa vida! as primeiras subidas… nem me quero lembrar! sinto-me cansada, as pernas pesadas e foi muito difícil… só pensava que tinha de comer beterraba pois dizem que faz bem às mulheres, depois lembrei-me da minha mãe “come bananas, tem muito ferro e magnésio!” lá foi o rafael comprar bananas! não consegui admirar a paisagens, só via alcatrão e pensava que não ia conseguir aguentar até ao destino… sentia-me mesmo pesada. não conseguia apanhar-lhe o ritmo e ele lá me ia ajudando a empurrar a bicicleta nas maiores subidas… não sei se foi da banana mas o meu corpo já se estava a recompor, lá ia pedalando mas sem nunca apreciar a paisagem, embora conseguisse ver que as montanhas eram mais pequenas! estamos a aproximar-nos de espanha! ia morrendo quando vimos uma placa que dizia “miranda 96km” isso significava que para chegar ao nosso destino tínhamos de pedalar 76 km e já tínhamos 20 kms no corpo… só podia ser engano. queria acreditar que era engano. paramos para comprar pão, sem sucesso, não havia pão para venda ao público. pedi se era possível ir à casa de banho, também sem sucesso, foi-me negado o pedido… tive de pedalar de bexiga cheia sem existir um cantinho para me aliviar. lá conseguimos comprar pão. uma senhora já de idade, pequenina, abriu-nos a porta e ainda me acompanhou até à casa de banho! santa senhora. o pão estava quentinho e cheirava tão bem! queríamos fazer pelo menos mais 15kms da parte da manhã, para pedalarmos menos depois. não custou tanto, as subidas não eram tão íngremes e depressa chegamos ao sítio do piquenique! o almoço foi um pouco diferente, além do pão com queijo, tínhamos salsichas vegetarianas também para pôr no pão! Delícia! De volta às bicicletas! Continuar a pedalar e finalmente vejo 65 km no conta-quilómetros mas não posso ficar contente com o finalmente… ainda tínhamos muito que pedalar! não estava a acreditar no que estava a acontecer! estávamos muito longe do destino e começou a chover… mas não foi grande a molha! depressa parou. não aguentava mais! já estávamos com 75 km e perguntamos se estávamos no caminho certo, a resposta foi positiva mas não me agradou saber que ainda faltavam 25kms… numa das subidas tive de parar, o que deixou o rafael chateado pois ele estava num bom ritmo, eu já não aguentava e vê-lo chateado por eu não conseguir seguir ao ritmo dele deixou-me bastante em baixo… pela primeira vez na viagem, em poucos dias, tive vontade de chorar, mas não podia perder energias com isso e tentei resistir! fiz das tripas coração e pedalei o mais que pude! quando via uma subida pedalava o máximo até chegar a ela e tentava não ir abaixo. lá consegui… lá consegui fazer 109 kms num dia… foi difícil mas já passou! mas sinto o corpo cansado! lá chegamos ao destino e fomos tão bem recebidos por um casal amigo do pai do Rafael. chegamos à casa e tínhamos sopa à nossa espera! hum! banho quente e noite agradável na conversa e com tanta comida à nossa frente! mais um dia conseguido! agora, preparo-me para dormir, o meu corpo pede descanso!

hum... que bom

pedaços de mim